Caso Flávio mostra risco assumido por Bolsonaro ao permitir proximidade de filhos no Planalto

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HuffPost BrasilCarlos, Jair, Flávio e Eduardo Bolsonaro: A gestão familiar da Presidência da República.

Com forte influência sobre o pai, os filhos de Jair Bolsonaro (PSL) têm trânsito livre no Palácio do Planalto, opinam em assuntos do governo federal e frequentam o mesmo ambiente que ministros e militares do primeiro escalão.

Se, por um lado, a tropa familiar ajudou Bolsonaro a chegar à Presidência da República, a presença dos filhos em questões que não os competem, por outro, começa a gerar desconforto em Brasília.

A situação complicou com o escândalo envolvendo o primogênito, Flávio Bolsonaro, senador eleito pelo Rio de Janeiro, e seu ex-assessor Fabrício Queiroz. O capítulo mais recente dessa história trouxe a revelação de que Flávio empregou, em seu gabinete na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio), a mãe e a esposa de um ex-militar suspeito de comandar o Escritório do Crime, milícia especializada em assassinatos por encomenda.

Com o agravamento da crise, assessores do presidente defendem que Bolsonaro seja blindado e que fique claro que apenas Flávio deve explicações ao Ministério Público e ao Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras). O órgão apontou movimentação financeira “atípica” de Queiroz e identificou, por exemplo, 48 depósitos suspeitos em dinheiro que somam R$ 96 mil na conta bancária do próprio Flávio Bolsonaro. O senador eleito diz ser “vítima de campanha difamatória com objetivo de atingir o governo Jair Bolsonaro”.

O vice-presidente, general Hamilton Mourão (PRTB), que assume interinamente a Presidência durante a viagem de Bolsonaro para o Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), tentou contemporizar o caso.

“O problema é dele [Flávio]. Mas o que acontece? Há essa repercussão toda por causa do sobrenome dele. Assim como ele, tem outros deputados da Assembleia Legislativa investigados por problemas similares”, afirmou Mourão na terça-feira (22). Mais de 20 gabinetes são investigados na Alerj, e a suspeita é de que os funcionários devolviam parte dos salários aos deputados.

Em Davos, na Suíça, para o Fórum Econômico Mundial, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que, caso sejam confirmadas irregularidades, o filho deverá ser punido. “Se por acaso ele errou e isso for provado, lamento como pai, mas ele terá de pagar o preço por esses atos que não podemos aceitar”, disse à agência de notícias Bloomberg.

Para Alexandre Bernardino Costa, professor da Faculdade de Direito da UnB (Universidade de Brasília), o fato de Queiroz ter depositado dinheiro na conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro coloca o presidente no centro do escândalo. De acordo com o Coaf, os depósitos somam R$ 24 mil, valor que Bolsonaro diz ser referente ao pagamento de uma dívida que o ex-assessor tinha com ele.

“Esse depósito do Queiroz na conta da esposa do Bolsonaro, hoje primeira-dama, indica que o dinheiro que era recolhido no gabinete do Flávio Bolsonaro não custeava só o Flávio, custeava a família Bolsonaro em alguma proporção. Isso chega até a Presidência da República de uma forma bastante explícita e é muito grave, precisa ser apurado”, disse Costa ao HuffPost Brasil.

O papel dos filhos

A eleição de Flávio para o Senado e a reeleição de Eduardo Bolsonaro na Câmara dos Deputados projetava que Bolsonaro teria dois homens de confiança no Congresso Nacional para ajudá-lo a construir sua base de sustentação parlamentar.

Com mais de 4 milhões de votos conquistados, Flávio poderia tomar posse como nome forte do governo e do PSL no próximo dia 1º de fevereiro, mas chega ao mandato absolutamente desgastado pelo caso Queiroz e a suspeita de envolvimento com milícia.

A atuação de Eduardo, por sua vez, é mais ampla, e ele opera como uma espécie de chanceler extraoficial do governo Bolsonaro. Ao lado dos ministros Sérgio Moro (Justiça), Paulo Guedes (Economia) e Ernesto Araújo (Relações Exteriores), o deputado federal por São Paulo viajou com o pai para Davos.

“Vamos para Davos falar ao mundo que um novo Brasil está nascendo, com segurança jurídica, que não enxerga o criminoso como vítima da sociedade, que não se associa a ditaduras e que sabe que um Estado gigante dá grandes margens a corrupção e ineficiência”, escreveu, no Twitter, ao postar foto do avião.

Em novembro, Eduardo se reuniu nos Estados Unidos com lideranças próximas ao presidente Donald Trump e, na tentativa de aproximar Brasília de Washington, reforçou o empenho do governo em transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém e em combater os regimes de Cuba e Venezuela.

Essa mistura se dá por uma relação familiar que é absolutamente promíscua, com a invasão dos filhos na Presidência da República sem que tenham sido eleitos para isso.Alexandre Bernardino Costa, professor da Faculdade de Direito da UnB.

Responsável por criar a estratégia de comunicação nas redes sociais que ajudou a eleger o pai, Carlos Bolsonaro chegou a ser cotado para ministro da Secom (Secretaria de Comunicação), mas a ideia foi rapidamente abandonada. Ele continua como vereador pelo Rio de Janeiro, mas sem deixar de orbitar em torno do Executivo.

Um levantamento feito pelo site UOL e divulgado no último dia 18 mostrou que Carlos foi mais recebido pelo pai no Palácio do Planalto do que 18 dos 22 ministros nos primeiros 15 dias de governo.

Filho mais próximo do presidente, Carlos já havia chamado atenção no primeiro dia do novo governo, ao ocupar a traseira do Rolls-Royce que conduziu Jair Bolsonaro e Michelle em desfile em carro aberto pela Esplanada dos Ministérios.

“Relação familiar promíscua”

Para o cientista político Pedro Arruda, professor da PUC-SP, a tendência é que o poder dos filhos sobre Bolsonaro e o governo arrefeça com o tempo. Além do desgaste de eventuais escândalos, Arruda aponta para o fato de que o presidente precisa de apoio qualificado para governar.

“A influência dos filhos deve ser cada vez menor ao longo do governo, e Bolsonaro precisará recorrer a um grupo de profissionais, a opiniões mais gabaritadas. Os filhos têm opiniões, evidentemente, mas são teses muito superficiais e é preciso maior robustez”, afirma.

“Daí a importância de alguns pensadores, digamos assim, que possam influenciar mais o seu governo. O Paulo Guedes desempenha esse papel na economia, e há o filósofo – ou pseudofilósofo – Olavo de Carvalho, que chegou a emplacar alguns ministros [Ernesto Araújo e Ricardo Vélez-Rodríguez, na Educação]”, acrescenta Arruda.

Para Alexandre Bernardino Costa, da UnB, Bolsonaro mantém com os filhos uma “relação familiar promíscua” no poder Executivo.

“Ainda que eles sejam representantes políticos, essa representação não corresponde à Presidência da República. A representação política deles diz respeito a seus estados de origem, na perspectiva e na proporção de seus cargos. Um é senador, outro é deputado federal e outro é vereador”, ressalta.

“Essa mistura se dá por uma relação familiar que é absolutamente promíscua, com a invasão dos filhos na Presidência da República sem que tenham sido eleitos para isso.”

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