Mel Lisboa sobre estreia de ‘Dogville’: ‘Provocar é importante neste momento’

0
9

Ale Catan/DivulgaçãoMel Lisboa interpreta Grace, a protagonista que é abusada pelos moradores de uma vila na fábula perversa de Lars Von Trier.

Provocação é uma palavra marcante na carreira de Mel Lisboa. A atriz gaúcha, hoje com 37 anos, ficou conhecida em todo o País logo em seu 1º papel, quando interpretou a provocante e misteriosa Anita com apenas 19 anos na série de TV Presença de Anitta (2001).

O sucesso, porém, veio com o estigma da personificação fetichista da “lolita”, imagem que impunha a ela interpretar sempre a mesma personagem sensual e infantilizada. Mel, entretanto, conseguiu se desvencilhar desse estereótipo, construindo uma carreira bem diversificada, com papéis marcantes na TV, cinema e, principalmente, teatro.

Desdêmona (Otelo), Roxanne (Cyrano), Celeste (Boca de Ouro), Rita Lee (Rita Lee Mora ao Lado – O Musical)… A diversidade de personagens que ela encarou nos palcos culmina com Grace, a protagonista da versão teatral do filme Dogville, que estreia em São Paulo nesta sexta-feira (25), no Teatro Porto Seguro.

Dirigida por Zé Henrique de Paula, a adaptação da obra do dinamarquês Lars von Trier foi indicada a diversos prêmios no Brasil e traz em seu elenco, além de Mel, Fábio Assunção, Eric Lenate, Bianca Byington, Marcelo Villas Boas, Anna Toledo, entre outros.

A trama se passa na fictícia Dogville, uma pequena cidade situada no topo de uma cadeia montanhosa no fim de uma estrada sem saída. A pacata rotina dos moradores é abalada pela chegada inesperada de Grace (Mel Lisboa), uma forasteira misteriosa que procura abrigo para se esconder de um bando de gângsteres. Ela é recebida por Tom Edison Jr. (Rodrigo Caetano), que convence os outros moradores a acolhê-la. Para agradecer os moradores locais por sua generosidade, Grace oferece seus serviços para as famílias da Dogville.

O filme ficou conhecido pela não utilização de um cenário, sendo todo rodado em um galpão com marcações de locais feitas no chão. Já a peça, curiosamente, segue um caminho bem mais cinematográfico. “Se o filme tem uma linguagem teatral, aqui a gente faz uma peça cuja linguagem também dialoga com o cinema”, explica Mel, em entrevista ao HuffPost Brasil sobre a peça.

A seguir, a íntegra da entrevista concedida por e-mail:

Renato Mangolin/DivulgaçãoMel Lisboa (Grace) e Fábio Assunção (Chuck) dividem o palco na peça Dogville.

HuffPost Brasil: É muito mais comum ver um filme baseado em uma peça, não o contrário. Essa é sua primeira experiência em uma peça baseada em um filme? O que te fez topar participar dessa montagem de Dogville?

Mel Lisboa: Sim. É a primeira peça que eu faço baseada em um filme. Eu topei porque eu gosto muito do filme. Acho o filme muito forte. Além de toda equipe da peça; o Zé [Henrique de Paula], o Felipe [Lima, idealizador do projeto]. São pessoas que eu admiro muito. Foi um convite irrecusável.

 
Para você, quais são as diferenças entre o filme e a peça?

Principalmente de linguagem. Porque o Zé inverte a linguagem. Se o filme tem uma linguagem teatral, aqui a gente faz uma peça cuja linguagem também dialoga com o cinema. Ela é uma peça visualmente diferente. O texto é o mesmo, mas a leitura de cada ator das personagens é bem particular. E aqui o narrador está presente. No caso do filme é apenas uma voz. Aquela feito pelo Eric [Lenate].

 
Quando você viu o filme Dogville pela 1ª vez? O que sentiu?

Eu assisti ao filme quando ele foi lançado no cinema, e para mim foi muito impactante. Não apenas pela história, mas pela linguagem do filme, porque é realmente muito ousado você fazer um filme desse porte dentro de um galpão. Fazer uma planta baixa e filmar dessa forma, sem cenário. É muito ousado. E ele consegue te jogar para aquela realidade. O que eu acho bárbaro da arte é que você se envolve com a história mesmo que o jogo esteja posto ali na sua frente. E ele [Lars Von Trier] faz isso com o filme. Além da questão da história em si, que é muito perturbadora. É uma questão que o Lars Von Trier coloca sempre. Quando você acompanha a filmografia dele, vê que ele é totalmente cético com relação ao ser humano. Ele coloca o ser humano de uma forma sempre muito mesquinha, muito sem saída. E bem ou mal vemos isso refletido na gente, em nossos próximos. Você fica perturbado.

Em Dogville, Grace é abusada de diversas formas, física e psicologicamente. Como você lida com a carga de um papel como esse em um momento em que a violência contra a mulher está tão em evidência?

Pois é, a questão dos abusos que a Grace sofre… Claro que eu faço de uma forma técnica para que não me machuque física e psicologicamente, mas essas situações pelo qual ela passa são importantes para a plateia. De que maneira isso chega a eles é o mais interessante, porque a arte tem essa função também, a função de provocar. De dar essa inquietude. Eu percebo que a plateia vai “emburacando” assim como a Grace. Eles ficam sem saída assim como ela. A Grace vai sofrendo os abusos e a plateia vai sofrendo junto. Isso é muito angustiante, mas é interessante provocar algo assim no público justamente neste momento, porque faz você refletir, faz você pensar. Para todas as pessoas, as que estão mais conectadas com o movimento feminista ou não.

O que mais te chamou a atenção no personagem Grace e como é para você viver uma personagem que ficou famosa na interpretação de uma atriz tão popular mundialmente como a Nicole Kidman?

Ela é uma personagem muito rica. Ela é muito ambígua, sinuosa, e ao mesmo tempo tem essa bondade sem limites que é também um pouco angustiante, porque à medida que ela vai sofrendo as violências sem reagir… Ela vai perdoando, perdoando, e aquilo vai dando um desconforto tal em quem assiste, que o final catártico faz você se sentir aliviado. E aí você se questiona: por que com um final como aquele você se sente aliviado, se sente liberto? Só o cão se salva. O único que presta é o cão. Tudo isso faz com que a personagem seja muito interessante e difícil também. É difícil achar esses meandros dela. Claro que fiquei apreensiva em fazer a personagem por conta de comparações, mas são linguagens diferentes. Coisas totalmente distintas e não tem como comparar. A minha Grace está dentro do nosso espetáculo e ela tem o espaço dela ali. E os meios que eu uso para chegar lá são diferentes dos da Nicole. Eu não posso sussurrar no palco. Os meios que eu uso são diferentes. Mas gostaria que a sensação que ela causa com a Grace dela também fosse semelhante a que a minha causa.

Dogville é um filme não apenas sobre a degradação do indivíduo, mas também da sociedade. Por conta do que vivemos no Brasil atualmente, a peça chega com um timing perfeito. Você concorda?

Eu concordo sim. Estamos vivendo tempos de polarização, de disseminação de ódio e eu acho que é importante uma obra como essa chegar, porque nos faz refletir. Provocar é importante neste momento. A peça fala sobre essa degradação do ser humano, da sociedade, de uma comunidade que a princípio queria ser boa e fazer o bem, mas à medida que ela vai se sentindo ameaçada, vai mostrando aquilo que há de pior dentro dela. O que há de mais podre dentro de cada um e da sociedade. A gente tem que refletir sobre isso, e a peça cumpre muito bem essa função.

Serviço

Dogville

Duração: De 25 de janeiro a 31 de março de 2019

Dias e horários: Sex. e sáb., às 21h; dom., às 19h

Local: Teatro Porto Seguro (Al. Barão de Piracicaba, 740 – Campos Elíseos, São Paulo)

Preços: Sex., R$ 80 (plateia) e R$ 50 (balcão/frisas); sáb. e dom., R$ 90 (plateia)  e R$ 60 (balcão/frisas)

Bilheteria: De ter. a sáb., das 13h às 21h; dom., das 12h às 19h. 

Ingressos online

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here