Nilma Duarte, a sambista que leva o plus size para a Marquês de Sapucaí

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Valda Nogueira/Especial para o HuffPost BrasilNilma Duarte é a 362ª entrevistada do “Todo Dia Delas”, um projeto editorial do HuffPost Brasil que celebra 365 mulheres.

Quem está acostumado com os relatos sobre rotina de alimentação, exercícios físicos e milhares de procedimentos estéticos em busca de corpos cada vez mais magros ou sarados no Carnaval talvez estranhe, mas existem mulheres gordas no samba. E a principal embaixadora desse movimento é a modelo Nilma Duarte, de 46 anos. Carioca e apaixonada pelo ritmo, ela tem a missão de dirigir, neste ano, uma ala somente com mulheres do 44 ao 60, na escola de samba Paraíso do Tuiuti, que desfila hoje, segunda-feira (4), na Sapucaí.

Não é a primeira vez, claro, que uma mulher plus size atravessa a Passarela do Samba. Em 2013, a passista Josiane Lira ganhou os holofotes ao se destacar como uma passista gorda no Carnaval. Mas a novidade deste ano, capitaneada por Nilma, fica por conta de uma inteira, com 80 componentes, que desafiam os padrões de beleza na festa de Momo.

“Eu tive desejo de ajudar essas mulheres que ficavam ocultas, atrás da moita. E tem um trabalho de autoestima e psicológico muito grande. Tem meninas com problemas muitos sérios, que às vezes têm uma pressão grande dentro de casa e não têm forças para reagir. Meninas que olham para o espelho e não conseguem se ver maravilhosas, mas com o trabalho vão desabrochando e se percebendo um mulherão.” 

Eu tive desejo de ajudar essas mulheres que ficavam ocultas, atrás da moita.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost BrasilAno passado, ela já teve a função de dirigir uma ala somente com mulheres negras. Neste ano, o desafio se manteve, mas com outra temática.

A construção da autoestima da passista existe desde a infância. Criada pela mãe ― que não teve apoio do marido para educar as duas filhas ― ela viu sua referência ser a de uma mulher forte, que levantava a bandeira da própria independência e não se curvava a pensamentos retrógrados. Tanta determinação por vezes fazia com que sua mãe fosse vista como “ovelha negra”, mas sempre como uma mulher muito forte.

“Ela teve a preocupação de passar isso para minha irmã e para mim. Ela dizia que não tínhamos que aceitar as pessoas falarem de nós ou nos desmerecer e sempre influenciou a nossa formação psicológica da melhor forma. Hoje eu tenho uma certeza: cada pessoa tem sua opinião, se ela for construtiva, eu vou absorver, e se não for, não entrará de forma nenhuma no meu pensamento.”

Tem meninas que com o trabalho vão desabrochando e se percebendo um mulherão.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil“Desde a adolescência, eu sempre me destaquei por ser grandona. Quando eu chego, chego mesmo.”

Por conta dessa influência, a sambista sempre teve uma boa relação com seu corpo, inclusive na adolescência, quando o bullying se tornou realidade. “Desde a adolescência, eu sempre me destaquei por ser ‘grandona’. Quando eu chego, chego mesmo. Aprendi assim: ‘se olha no espelho, você é maravilhosa’. Aprendi que a fulana pode ser bonita, mas isso não faz eu me desmerecer ou me sentir melhor. Eu me sentir maravilhosa só faz com que eu me sinta bem comigo mesma, não diminui ninguém. É legal isso.” 

Apesar de ter uma boa autoestima, Nilma enfrentou um pouco de desconfiança quando criou o seu projeto Plus no Samba RJ. Sim, porque além de dirigir uma ala completa, ela também mantém o ano inteiro as mulheres gordas nos holofotes, com um grupo-show. Mesmo com as dificuldades, ela não desiste do seu propósito.

Cada pessoa tem sua opinião, se ela for construtiva, eu vou absorver.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil“Esse é o meu desejo, o reconhecimento de todas, a aceitação por parte da indústria.”

“Imaginei que seria muito fácil, achei que todo o meio plus size iria abraçar a causa e surpreendentemente não foi assim. Achei que todas as modelos fossem ficar comigo. Eu chamei, mas não tive retorno. Algumas não curtiam Carnaval, e outras pagaram para ver, para saber o que iria acontecer e, se fosse o caso, se jogar. Mas para o desfile eu já estou com uma representatividade desse meio: modelos, profissionais da beleza. Há componentes de fora do Rio e até de fora do país, que me conheceu através das redes sociais.”

Mulher acolhedora, com voz calma e cabelão que chama a atenção, no ano passado, ganhou a função de dirigir uma ala somente com mulheres negras na mesma escola de samba. Nesste ano, com as mulheres plus size, o desafio se manteve. E, junto com ele, as críticas.

“Existe também um grupo, uma pequena parte que acha que o trabalho que é desenvolvido é um trabalho ‘presepeiro’. Eu encontrei resistências assim, de gente dizendo que eu só queria aparecer, crescer em cima das meninas, que elas seriam bengalas. Eu costumo dizer que se eu realmente quisesse aparecer, eu me poderia me autopromover, sem juntar tanta gente. Lidar com pessoas é difícil.”

Eu me sentir maravilhosa só faz com que eu me sinta bem comigo mesma, não diminui ninguém.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost BrasilEla, que já trabalhou como camelô pelas ruas do Rio, hoje exalta a beleza das mulheres plus size na Avenida.

Mas Nilma tem firme o propósito de fazer principalmente com que os sambistas, pagodeiros e amantes das “coisas boas da vida” enxerguem a mulher gorda também como uma digna e merecedora de tudo de bom que existe.

“O que eu quero é que o sambista, quando faça um clipe, ponha uma gorda como protagonista. Sou muito fã de algumas meninas que têm barriga de tanquinho, mas a gorda também faz parte de um público. Esse é o meu desejo, o reconhecimento de todas, a aceitação por parte da indústria.” 

O que eu quero é que o sambista quando faça um clipe, ponha uma gorda como protagonista.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost BrasilNilma sonha com o dia que mulheres grandonas e belas, como ela, não sejam vista com maus olhos no Carnaval carioca.

Nilma também pretende abrir uma marca de roupas para esse público e tirar as mulheres gordas do estereótipo que não podem usar modelitos coloridos, brilhosos ou pouco glamourosos. No passado, ela trabalhou como camelô em uma das ruas do Méier, na zona norte carioca, e quando viu algumas de suas peças transformarem a relação de mulheres com o espelho nutriu esse sonho: “Seria tão bom elas chegarem num local e encontrarem aquilo sem ter um trabalho a mais.”

Empolgada com o Carnaval e torcendo para o campeonato da escola que a acolheu, Nilma sonha com o dia que mulheres “grandonas e belas” como ela não sejam vista com maus olhos no Carnaval. “Quando a gente muda a forma de se enxergar, o preconceito perde forças. Cada um dá o seu melhor. A questão é como você vê as coisas: quem gostou, continua olhando, quem não gostou, vira costas.”

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto “Todo Dia Delas” ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Verizon Media Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.

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