Para Janaína Teles, é preciso ‘contar sempre’ histórias de quem viveu a ditadura militar

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Arquivo PessoalNa sequência: Janaína Teles, Edson Teles, Amelinha Teles e César Augusto Teles.

“Eles levaram eu e o meu irmão para a sessão de tortura. Mas essa cena eu apaguei. Ainda bem”, conta a historiadora Janaína Teles ao HuffPost Brasil. Aos cinco anos de idade, ela e seu irmão, Edson Teles, de quatro, viveram uma semana sob o olhar de militares nas dependências do DOI-CODI, em São Paulo, quando viram seus pais serem torturados.

Lembranças dessa época sombria deixaram marcas invisíveis. “Eu só lembro de ficar lá por uma semana, da cela em que eles ficaram presos e de estarem muito machucados.”

Janaína é filha dos ex-presos políticos César Augusto Teles e Maria Amélia de Almeida Teles, a Amelinha, militante brasileira torturada na ditadura militar. Ela, ao lado de outros sobreviventes e do Instituto Vladimir Herzog, entrou com um pedido no Supremo Tribunal Federal (STF) na última semana para que comemorações autorizadas pelo presidente Jair Bolsonaro sobre o golpe militar de 1964, que completa 55 anos neste domingo (31), fossem impedidas.

O caso, que ficou sob análise do ministro Gilmar Mendes, foi apresentado ao Supremo diante da declaração do porta-voz da Presidência, Otávio Rêgo Barros, sobre a determinação do presidente Jair Bolsonaro ao Ministério da Defesa para realizar “comemorações devidas” pelos 55 anos do golpe militar.

O ministro rejeitou o pedido alegando que “não havia ato concreto a ser questionado judicialmente, somente a declaração do porta-voz da Presidência”.

SERGIO LIMA via Getty ImagesPresidente Jair Bolsonaro afirmou, depois, que a decisão foi “rememorar” a data de 31 de março de 1964, não comemorar o golpe.

Na última semana, em entrevista ao jornalista José Luiz Datena no programa Brasil Urgente, da TV Bandeirantes, Bolsonaro disse que não houve ditadura no Brasil e comparou as graves violações de direitos humanos no período a “probleminhas” em uma relação conjugal. “Temos de conhecer a verdade. Não quer dizer que foi uma maravilha, não foi uma maravilha regime nenhum. Qual casamento é uma maravilha? De vez em quando tem um probleminha, é coisa rara um casal não ter um problema, tá certo?”, disse.

“Nós [sobreviventes da ditadura] nos sentimos muito desrespeitados. Eu, ainda como historiadora, me senti duplamente desrespeitada”, afirma Janaína sobre declaração do presidente Jair Bolsonaro. “Temos um presidente que defende o negacionismo histórico relativo à ditadura. E há 40 anos nós estamos produzindo material histórico e repetindo a mesma coisa, que é negada.”

A prisão de Amelinha

De acordo com informações da ONG Memórias da Ditadura, Amelinha, que era militante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e membro do jornal Brasil Mulher, foi presa em 28 de dezembro de 1972 pela Operação Bandeirantes (Oban) e foi submetida a sessões de torturas.

Seu marido, César Augusto Teles, e seu companheiro de militância Carlos Nicolau Danielli também foram presos. Ela testemunhou o assassinato de Danielli e, seus filhos, Edson e Janaína, com 4 e 5 anos de idade respectivamente, foram levados para assistir seus pais serem torturados.

Hoje ela é diretora da União de Mulheres de São Paulo, coordenadora do Projeto Promotoras Legais Populares, integra a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e é assessora da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”.

César Augusto Teles morreu em 2015, aos 71 anos de idade, 43 anos desde sua prisão. Ao lado de Amelinha, ele fazia propaganda contra o regime militar e, muitas, vezes, tiveram que se mudar às pressas. À época César trabalhava como presidente do sindicato dos ferroviários.

Após passar uma semana nas dependências de um dos centros de tortura mais conhecidos da ditadura, Janaína e Edson ficaram seis meses separados de seus pais. Ela lembra que, junto com seu irmão, foram levados até a casa de um policial em Minas Gerais. “A gente ficou sequestrado na casa de um policial que, para o meu azar, era casado com a irmã mais velha do meu pai. E ele era ligado ao DOI-Codi de Minas, então o Ustra pediu pra ele ficar conosco.”

Ustra, que ela cita, é o general Carlos Alberto Brilhante Ustra, militar responsável pelo DOI-Codi em São Paulo, local que tinha celas de detenção e salas de interrogatório – e também de tortura -, em São Paulo, entre 1970 e 1974. Ele já foi homenageado na Câmara em 2016 por Bolsonaro, ao votar pelo impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT) e chamado de “herói” por ele ao responder ao processo no Conselho de Ética da Câmara.

“Eles levaram a gente até lá para ver minha mãe sendo torturada e pressioná-la a falar. Uma lembrança que eu tenho é do próprio Ustra me interrogar. Eu respondia o tempo inteiro ‘eu não sei’. Eu nem sabia o nome verdadeiro dos meus pais, só chamava de ‘mãe’ e de ‘pai’. Eu tinha cinco anos.”

De acordo com o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, divulgado em 2014, responsável por apurar fatos sobre o período da ditadura militar e torná-los públicos, oficialmente 434 pessoas foram mortas ou desapareceram, e milhares foram presas, torturadas e afastadas dos seus familiares.

Por mais que eu não queira, carrego esses momentos para sempre comigo.

Janaína lembra com mais nitidez de situações em que viveu na casa do “tio”, em Minas que, para ela, foram como uma espécie de tortura.

“Ele falava que meu pai e minha mãe tinham me abandonado, que ‘comunista não merecia receber carta’ quando eu dizia que queria escrever para eles. Eu nem sabia o que era isso. E depois ele ainda inventou que meu pai tinha morrido. Foram seis meses muito difíceis, ainda mais para uma criança de 5 anos.”

No momento em que a família voltou a se encontrar, um novo ciclo se iniciou: ao lado de seus pais e irmão, Janaína enfrentou consequências dos impactos da vivência de repressão e violência à qual ela e seus pares foram submetidos.

“Por mais que eu não queira, carrego esses momentos para sempre comigo. O fato de eu ter amadurecido cedo é uma consequência, e sempre traz uma cobrança. É um trauma. Você fica meio deslocada, estranha no mundo, meio na frente ou atrás. Nunca junto. Mas é algo que você aprende a conviver.”

Arquivo PessoalAmelinha, Padre Renzo Rossi (amigo da família), Crimeia (tia de Janaína), Edson e Janaína, em foto tirada no Rio de Janeiro, no ano de 1975.

O amadurecimento de Janaína foi como uma sequela deste período e não só sua mente precisou se recuperar, mas também seu corpo. “Eu quis ser adulta muito cedo”, conta.

Ela atribui ao stress físico e emocional a que foi submetida na infância o fato de ter menstruado muito cedo, aos 7 anos de idade. Aos 28, entrou em processo de menopausa precoce. “O medo sempre esteve presente. E o que eu aprendi com os anos, é o que o [filósofo suíço Jean] Piaget falava: ’você não pula nenhuma fase da vida, mas se pular, a vida te cobra’”, diz. “Fiz tratamentos hormonais, fiz terapia. Acho importante falar sobre.”

Arquivo PúblicoAmelinha, que era militante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e membro do jornal Brasil Mulher, foi presa em 28 de dezembro de 1972 pela Oban.

Em 2005, Janaína e sua família deram entrada em uma ação inédita contra o ex-coronel da reserva Carlos Alberto Brilhante Ustra pelas torturas a que foram submetidos na época da ditadura militar. Em 2008, ele foi condenado e declarado publicamente “torturador” pela Justiça.

“Então, hoje, é por isso que a fala do presidente é um absurdo: vai contra a decisão da Justiça, contra a Comissão da Verdade, e até da historiografia nacional e internacional.”

Ela credita à negação da existência de repressão no período também a ameaças que têm sofrido, junto com sua mãe, desde as eleições de 2018. Ao lado de Amelinha, ela apareceu no programa eleitoral do então candidato à Presidência Fernando Haddad (PT). 

“Eles colocam muitos fios elétricos descascados dentro da vagina, colocam dentro do ânus. Você grita de dor, perde o equilíbrio e cai no chão (…). Eles vêm em cima de você, para te estuprar”, diz Amelinha no vídeo.

Há 40 anos a gente conta essas histórias e é preciso contá-las sempre. Isso eu falo como sobrevivente.

Em seu depoimento para a campanha, ela lembra quando seus filhos foram levados para vê-la torturada. “O momento de maior dor foi ver Ustra levando os meus dois filhos, assim, na sala de tortura, onde eu estava nua, vomitada, urinada”, conta. Janaína aparece dizendo que lembra “de entrar na cela e ver meus pais sem se mexer, muito machucados”.

De acordo com Janaína, que é doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), o Brasil sofre com a política do esquecimento e do fascínio que o regime de exceção que durou 21 anos exerce em parte da população.

“O negacionismo histórico é pregado por motivos ideológicos, não há motivação factual nenhuma”, afirma. “Quando Bolsonaro se refere ao período como um ‘probleminha’, ele apaga crimes cometidos e volta ao imaginário de 1964, de que o inimigo era interno. Há 40 anos a gente conta essas histórias e é preciso contá-las sempre. Isso eu falo como sobrevivente.”

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